O potencial adormecido das Instituições de Ensino Superior no Brasil

Instituições de Ensino Superior sem fins lucrativos no Brasil estão começando a entender o potencial da captação de recursos.

Muitas delas não consideram essa possibilidade e acabam tendo suas receitas dependentes quase exclusivamente das mensalidades dos alunos, o que compromete sua capacidade de investir em projetos de pesquisa, inovação ou de fazer investimentos na manutenção e ampliação de sua infra-estrutura.

Universidades como Harvard, por exemplo, tem apenas 20% de suas receitas provenientes da “tuition” dos alunos (mensalidades). O restante provêm de diversas outras fontes, incluindo 30% da remuneração de seu Fundo Patrimonial (Endownment), criado a partir de doações, especialmente de ex-alunos.[i]

Isso porque as doações para as Instituições de Ensino Superior (IES) nos EUA representam a 2a. maior prioridade nos investimentos sociais dos americanos, ficando atrás apenas das organizações religiosas. Segundo o relatório Voluntary Support for Education, U$ 37,45 bilhões foram doados para IES em 2014.

No cenário geral das doações, comparando com a realidade brasileira, os americanos doam para organizações sem fins lucrativos o equivalente a 2,13% do seu PIB. No Brasil, algumas pesquisas demonstram que o montante investido no setor sem fins lucrativos pelos brasileiros (indivíduos e empresas) não ultrapassa 0,4% do nosso PIB. A média latino americana é de 0,8% do PIB, o que demonstra que temos capacidade de ao menos dobrar esse valor nos próximos anos.

Eis a seguir alguns motivos para acreditar que IES podem ser um dos setores a liderar o crescimento da cultura de doação no Brasil:

  1. Já existem casos bem sucedidos de IES realizando captação de recursos no Brasil com ex-alunos e empresas. INSPER, Fundação Getúlio Vargas, ITA, Poli, são algumas das iniciativas que têm tido mais destaque na imprensa. O caso do INSPER, por exemplo, chama atenção pela campanha bem sucedida para criação do curso de engenharia, totalmente financiado – R$ 85 milhões – com recursos captados de empresas e indivíduos.
  2. Segundo a Fasfil[ii], existem 1.395 instituições de ensino superior sem fins lucrativos no Brasil. Elas representam 0,5% dessas organizações, mas ocupam 8% da mão de obra empregada, com uma média de 120 funcionários assalariados cada (15 vezes mais do que a média das organizações sem fins lucrativos), denotando que são mais estruturadas que a média e provavelmente com maior potencial de investir em um processo de desenvolvimento de uma área de captação de recursos mais robusto e de longo prazo;
  3. Quando falamos de organizações sem fins lucrativos e doações, o imaginário do brasileiro logo leva a doações para entidades de caridade. Doadores mais maduros estão interessados em investir seus recursos em propostas que levem a novas soluções para o Brasil. As IES certamente podem ocupar esse espaço da inovação e do investimento social estratégico, mas precisam pensar grande e com interesse público.
  4. Em se tratando de empresas que buscam inovação, a última edição do Edelman Trust Barometer[iii], revela alguns dados interessantes que atestam a importância do estreitamento das relações entre empresas e IES para o desenvolvimento de pesquisa e inovação. Por exemplo, na busca pela construção de confiança no processo de inovação das empresas, “parceria com instituições acadêmicas” figura como uma das alternativas mais citadas pelos respondentes da pesquisa (75%);

Os casos de criação de áreas de captação de recursos em IES no Brasil começam a ser tema de estudos e teses de mestrado. Pelo que constatamos nesses levantamentos e na realidade de alguns de nossos clientes, algumas lições aprendidas nesse campo são:

É um trabalho de longo prazo.

Há uma grande diferença entre ter uma iniciativa pontual e uma iniciativa com capacidade de gerar resultados de longo prazo. Algumas diferenças entre os dois modelos:

Desenvolvimento Institucional (Longo Prazo) Captação de Recursos (Pontual)
Processo contínuo Evento episódico, temporário
Objetivos gerais, com compromisso institucional e visão de longo prazo Objetivos pontuais ou específicos, sem necessário compromisso institucional e visando o curto prazo;
Requer um plano com integração mais ampla da instituição com sua missão, bem como paciência e sensibilidade para construção de relações Requer uma base de habilidades específicas de relações interpessoais e comunicação.
Requer o compromisso da diretoria e gestor interno, com habilidades de relacionamento interno e externo e compreensão do ciclo de desenvolvimento de parcerias Requer uma pessoa com habilidades de vendas e/ou uma carteira de bons relacionamentos. Tende-se a contratar consultor externo, remunerado por comissão.

Fonte: Adaptado de Worth, M.J Educational Fundraising. Westport (CT): Oryx Express, 1993.

Citado na tese de mestrado “Estratégias de captação de recursos aplicáveis à realidade das faculdades de administração de instituições de ensino superior brasileiras”, de Valéria Riscarolli.

Compromisso da diretoria e alto escalão das IES

Os casos bem sucedidos atestam: “O captador de recursos principal da instituição é seu diretor ou presidente”. Se não há compromisso do alto escalão da instituição, será muito difícil garantir que se cristalize uma cultura de captação de recursos e doação entre professores, alunos e funcionários da IES. Um dos casos emblemáticos no Brasil é o engajamento do presidente do Insper, Claudio Haddad.

Trabalho Integrado

Apesar de ser fundamental a criação de uma área responsável pelo gerenciamento das relações de parceria da escola, professores e pesquisadores são atores fundamentais na atração de recursos, seja desenvolvendo estudos e pesquisa aplicadas às necessidades do mercado e da sociedade, seja mobilizando sua rede de contatos.

clube de parceiros gv

Reconhecimento público no Clube de Parceiros da FGV

Adequação da proposta de valor aos interesses do público e da sociedade

Princípio básico do compartilhamento de valor, as IES, para atrair parceiros, devem se aproximar cada vez mais de dois públicos de maior interesse: os ex-alunos e as empresas. Essa aproximação não é um caminho fácil, mas exigirá, por parte das IES, a capacidade de compreender as necessidades e os interesses desses públicos e criar relações favoráveis aos dois lados. Se tratar ex alunos e empresas como “caixas eletrônicos”, prontos para satisfazer as necessidades das IES, as relações dificilmente irão prosperar.

Apenas para critério de estimativas, se 50% das IES no Brasil captarem por ano R$ 5 milhões, em média, isto significaria um montante de R$ 3,5 bi investidos anualmente em projetos de interesse da sociedade brasileira. Um valor superior ao total investido por todos os associados do GIFE (Grupo de Instituto, Fundações e Empresas), rede de congrega 132 maiores e mais estruturados investidores sociais brasileiros, como Fundação Bradesco, Fundação Ford, Instituto Arapyau etc.

A constatação, apesar de ser uma estimativa, indica a importância de fazermos escolhas setoriais para avançarmos no desenvolvimento da cultura de doação no Brasil.

Para isso, no entanto, as IES sem fins lucrativos precisam acordar para sua importância e seu potencial. E precisam ousar e criar planos de grande magnitude a serviço do Brasil e de suas comunidades.

alunos pesquisando

[i] Fonte: Harvard University Fiscal 2013 Sources of Operating Revenue: http://www.harvard.edu/about-harvard/harvard-glance/endowment

[ii] Estudo Fundações Privadas e Associações Sem fins lucrativos no Brasil, 2010. IBGE/IPEA/GIFE – ftp://ftp.ibge.gov.br/Fundacoes_Privadas_e_Associacoes/2010/fasfil.pdf

[iii] http://www.edelman.com.br/propriedades/trust-barometer

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