Saúde mental na captação de recursos: dois anos depois, o alerta continua

O Censo ABCR 2025 recoloca em evidência um tema investigado pela Mobiliza e pela Plataforma Conjunta em 2023: os impactos da sobrecarga, da falta de estrutura e da baixa integração sobre quem trabalha com captação de recursos.

Em 2023, a Mobiliza e a Plataforma Conjunta decidiram investigar uma situação que muitas pessoas que atuam com captação de recursos já conheciam na prática: a pressão permanente por garantir a sustentabilidade das organizações e os efeitos que essa responsabilidade pode provocar sobre a saúde mental.

O estudo foi realizado em duas etapas. Primeiro, foram feitas entrevistas em profundidade com 12 profissionais. Em seguida, um questionário elaborado a partir dessas conversas recebeu 79 respostas. Desde o início, o trabalho foi apresentado como exploratório: não tinha a intenção de encerrar o debate, mas de colocar luz sobre um assunto ainda pouco discutido e incentivar novas pesquisas e mudanças nas organizações.

Dois anos depois, o Censo ABCR 2025 trouxe perguntas inéditas sobre saúde mental e voltou a colocar o tema no centro da discussão sobre a profissão. A edição ouviu 270 pessoas, das quais 260 atuavam com captação, representando 23 estados brasileiros.

Os novos dados não apenas reforçam a relevância do assunto. Eles ajudam a compreender que cuidar da saúde mental de quem capta recursos exige mais do que intervenções individuais: exige mudanças na cultura, na gestão e na estrutura das organizações.

O alerta identificado em 2023

No estudo da Mobiliza e da Plataforma Conjunta, 64% das pessoas respondentes estavam no lado negativo do espectro de saúde mental utilizado pela pesquisa. Nesse grupo estavam pessoas que se definiam como “lutando” ou “em crise”, com manifestações como ansiedade, cansaço, exaustão, dificuldades de desempenho, sono ou alimentação. Apenas 20% estavam no lado positivo do espectro.

Outro resultado particularmente preocupante dizia respeito à permanência na profissão. Para 62% das pessoas participantes, os episódios que afetavam sua saúde mental representavam um risco moderado ou sério para sua trajetória profissional. Quase uma em cada quatro pessoas considerava que havia um risco sério para sua carreira.

Mas talvez a principal contribuição daquele levantamento estivesse na identificação dos fatores associados a esse cenário.

Os três mais citados foram:

  • sobrecarga e excesso de trabalho, mencionados por 53%;
  • falta de uma equipe adequada, indicada por 49%;
  • falta de compreensão interna sobre a área ou conflitos com a equipe programática, apontados por 40%.

Os dois primeiros fatores — muito trabalho e poucos recursos — também aparecem na pesquisa do Instituto Phomenta sobre trabalhadores do terceiro setor em geral. O terceiro, porém, parece revelar uma particularidade da captação: a sensação de isolamento e de pouca integração com o restante da organização.

Em diferentes depoimentos, profissionais relataram que eram tratados como pessoas externas à dinâmica institucional, embora carregassem uma enorme responsabilidade pelos resultados financeiros. A captação era cobrada, mas não necessariamente compreendida, planejada ou realizada de maneira coletiva.

O tema e as pesquisas naquele período tiveram tanto destaque no setor que acabaram se transformando num artigo na relevante revista Staford Social Innovativon Review.

O que o Censo ABCR 2025 acrescenta

No Censo ABCR 2025, 48% das pessoas afirmaram sentir algum impacto negativo da atividade de captação sobre sua saúde mental. Para 35%, o impacto era leve; para 13%, era grave e constante. Gerentes apresentaram o maior percentual de impacto grave, chegando a 17%.

O Censo também ajuda a enxergar o contexto no qual esse impacto acontece.

O principal desafio citado pelas pessoas respondentes foi o fato de a captação não ser vista como estratégica pelas organizações, apontado por 30%. Em seguida apareceram o pouco tempo para captar, devido à necessidade de dividir a jornada com outras tarefas, e os poucos recursos disponíveis para investir na área, ambos com 27%.

Além disso, 54% dedicam menos de 20 horas semanais à captação. A atividade raramente é exclusiva: quem capta frequentemente também elabora projetos, cuida da comunicação, se relaciona com doadores, participa do planejamento estratégico e financeiro e realiza a gestão de projetos.

Esses dados descrevem uma profissão que continua marcada por modelos muito diferentes: profissionais em áreas estruturadas convivem com dirigentes que captam por acúmulo de função, consultores independentes, voluntários e pessoas encarregadas de captar sem plano, equipe ou formação adequada.

O problema não é apenas individual

Quando se fala em saúde mental no trabalho, existe o risco de transformar um problema institucional em uma responsabilidade exclusivamente individual.

Descansar, estabelecer limites, buscar apoio e ter acesso a cuidados de saúde são medidas importantes. Mas elas não substituem uma estratégia de captação, uma equipe adequada, metas possíveis, remuneração compatível, clareza de papéis e apoio das lideranças.

Não podemos pedir que uma pessoa “aprenda a lidar com a pressão” quando essa pressão é produzida por metas desconectadas da realidade, falta de orçamento, acúmulo de funções ou pela expectativa de que alguém recém-contratado resolva sozinho toda a sustentabilidade financeira da organização.

Uma das reflexões do estudo de 2023 é que o trabalho de quem capta muitas vezes acaba sendo avaliado de maneira binária: se o dinheiro entrou, houve sucesso; se não entrou, houve fracasso. Essa lógica desconsidera o tempo necessário para construir relacionamentos, desenvolver estratégias, fortalecer a reputação institucional e criar condições para resultados sustentáveis.

Quando a sobrevivência da organização e os empregos de colegas parecem depender exclusivamente do desempenho de uma única pessoa, o peso se torna desproporcional.

Cinco mudanças que as organizações podem fazer

1. Reconhecer a captação como uma atividade estratégica

A estratégia de financiamento precisa ser discutida e liderada pela diretoria e pelo conselho, e não delegada integralmente a uma pessoa ou departamento.

A sustentabilidade financeira é parte da estratégia institucional tanto quanto os programas, os projetos e a missão.

2. Transformar a captação em responsabilidade compartilhada

Comunicação, área programática, financeiro, liderança e governança precisam estar envolvidos.

Quem capta depende de boas informações sobre os projetos, dados de impacto, narrativas consistentes, prestação de contas, relacionamento institucional e participação das lideranças. Sem essa integração, o trabalho fica isolado e perde potência.

3. Definir metas factíveis e respeitar o tempo da captação

Metas precisam considerar o histórico da organização, sua reputação, as fontes disponíveis, a capacidade da equipe e o tempo necessário para construir relações.

Também devem ser avaliadas periodicamente, com espaço para revisão, diálogo e aprendizado — e não apenas para cobrança.

4. Investir em estrutura, equipe e remuneração

Não é razoável esperar resultados consistentes sem orçamento, ferramentas, comunicação, equipe e condições adequadas de trabalho.

Regimes de contratação, remuneração e atribuições devem ser compatíveis com o escopo e a responsabilidade da função. O investimento na área não é um desvio de recursos da missão: é uma condição para que a missão tenha continuidade.

5. Criar espaços permanentes de diálogo e cuidado

Reuniões de feedback, acompanhamento da carga de trabalho, abertura para compartilhar dificuldades e acesso a estratégias de cuidado precisam fazer parte da gestão.

O estudo de 2023 também recomenda integrar quem capta ao restante da equipe, construir vínculos de confiança e incluir esses profissionais nas políticas de saúde mental e bem-estar da organização.

Cuidar de quem capta é cuidar da causa

Os resultados do estudo da Mobiliza e da Plataforma Conjunta e os dados do Censo ABCR apontam para uma conclusão comum: saúde mental, desenvolvimento institucional e sustentabilidade financeira não são temas separados.

Organizações fragilizadas tendem a criar condições mais precárias para captar. Condições precárias aumentam a pressão sobre profissionais. Profissionais sobrecarregados, isolados ou sem estrutura têm menos condições de desenvolver estratégias consistentes. E isso fragiliza ainda mais a organização.

Romper esse ciclo exige reconhecer que a captação não é um “mal necessário”, nem uma tarefa que deve ser entregue a alguém para que o restante da equipe deixe de se preocupar com dinheiro.

Captar recursos é construir relações, confiança e sustentabilidade. É um trabalho institucional e coletivo.

Quem sustenta as causas também precisa ser sustentado.

Conheça os estudos citados

Baixe o estudo Saúde Mental de Profissionais de Captação de Recursos, realizado pela Mobiliza e pela Plataforma Conjunta.

Conheça também os resultados completos do Censo ABCR 2025.