A filantropia está mudando de lado: 5 estudos que todo captador precisa conhecer

Por Mobiliza Consultoria

Durante décadas, a lógica dominante da filantropia global foi construída sobre uma premissa silenciosa: o doador sabe o que a organização precisa. O financiador define o escopo, controla o uso dos recursos, exige prestações de contas detalhadas e celebra a eficiência medida pela fatia de despesas administrativas. Organizações da sociedade civil aprenderam a se curvar a este molde — cortando custos de gestão, terceirizando a narrativa sobre suas próprias necessidades e aceitando recursos insuficientes como condição do jogo.

Esse modelo está sendo desafiado. E a evidência é robusta.

Nos últimos anos, uma série de estudos de peso revisou os fundamentos da prática filantrópica — não com ideologia, mas com dados. Abaixo, apresentamos cinco desses estudos e o que eles significam para as OSCs brasileiras que dependem de captação para existir.


1. O Efeito MacKenzie Scott — CEP, 2025

Em fevereiro de 2025, o Center for Effective Philanthropy (CEP) publicou o relatório final de uma pesquisa de três anos sobre o impacto das doações de MacKenzie Scott a mais de 2.000 organizações sem fins lucrativos nos EUA. O título diz tudo: “Breaking the Mold: The Transformative Effect of MacKenzie Scott’s Big Gifts”.

Os resultados derrubaram a principal objeção dos financiadores tradicionais. Quase 90% dos líderes de organizações receptoras relataram que as doações fortaleceram moderada ou significativamente a sustentabilidade financeira de longo prazo de suas organizações. Os dados de balanços patrimoniais (formulário 990) mostram que as organizações receptoras tinham o dobro de meses de reservas operacionais dois anos após receber a doação, em comparação com outras organizações similares. CEP

A abordagem de Scott — recursos sem restrições de uso, sem exigências de relatórios elaborados e sem prazos para aplicação — era vista com ceticismo pelos grandes financiadores. A pesquisa do CEP mostrou que esse ceticismo não tinha base empírica.

O que isso significa para OSCs brasileiras? O argumento de que recursos livres são desperdiçados é uma crença, não um dado. Organizações com capacidade institucional sólida utilizam recursos irrestrictos para construir resiliência — exatamente o que um plano estratégico de captação deve criar.


2. Pay What It Takes — The Bridgespan Group, 2016 (com impacto crescente até hoje)

Publicado originalmente na Stanford Social Innovation Review, o estudo do Bridgespan Group é um dos trabalhos mais citados e influentes da filantropia contemporânea. A pesquisa examinou as estruturas de custos de 20 organizações de alto desempenho e encontrou que os custos indiretos variavam de 21% a 89% dos custos diretos — e que a mediana entre essas organizações era de 40%, quase três vezes o teto de 15% de overhead que a maioria das fundações reembolsa. Bridgespan

Em pesquisa posterior com 300 ONGs que respondem por um terço dos gastos combinados das 15 maiores fundações americanas, o Bridgespan constatou que mais da metade sofre com déficits orçamentários frequentes ou crônicos, e 40% têm menos de três meses de reservas operacionais. Bridgespan

O argumento central é direto: tratar custos institucionais como overhead a ser minimizado não é eficiência — é o mecanismo que perpetua o que os pesquisadores chamam de starvation cycle, o ciclo de fome organizacional. Uma década depois de publicado, o estudo continua sendo referência obrigatória, tendo inspirado iniciativas similares na Índia, Austrália e em outros contextos globais.

O que isso significa para OSCs brasileiras? O debate sobre custos institucionais que a Mobiliza tem levado ao centro do setor ganha aqui seu respaldo científico mais sólido. Organizações que conseguem nomear, calcular e negociar seus custos reais com financiadores não estão sendo “difíceis” — estão aplicando uma metodologia com evidência internacional.


3. Trust-Based Philanthropy — Trust-Based Philanthropy Project, 2024

O Trust-Based Philanthropy Project publicou, em 2024, os resultados de sua terceira pesquisa anual com financiadores, agora com respostas de 573 organizações grantmakers. A pesquisa iluminou como a filantropia baseada em confiança está sendo explorada, praticada e incorporada por financiadores, e o que eles acreditam ser necessário para fazer essa abordagem avançar das margens para o centro da prática filantrópica. Trustbasedphilanthropy

Os princípios da Trust-Based Philanthropy incluem financiamento plurianual irrestrito, simplificação de processos de candidatura e prestação de contas, comunicação transparente sobre limitações dos financiadores, e escuta ativa das organizações financiadas. Financiadores que adotaram essa abordagem relatam ter se tornado parceiros estratégicos, com acesso mais honesto aos desafios reais das organizações e capacidade de atender suas necessidades de forma mais eficaz. Trustbasedphilanthropy

O que isso significa para OSCs brasileiras? Há uma abertura crescente entre financiadores internacionais para relações mais horizontais. OSCs que sabem comunicar sua identidade institucional com clareza — e não apenas seus projetos — estão melhor posicionadas para acessar esse tipo de parceria.


4. GEO National Study of Philanthropic Practice — 2025

O Grantmakers for Effective Organizations (GEO) lançou em novembro de 2025 o maior estudo sobre prática filantrópica nos EUA, com respostas de 765 fundações. Os dados revelam uma mudança estrutural em curso.

Mais da metade das fundações pesquisadas já distribui acima do limiar mínimo de 5% de seus patrimônios, com 43% distribuindo entre 5% e 7%, e 12% distribuindo mais de 7%. Isso representa uma quebra histórica: por décadas, o piso de 5% era tratado como teto na prática. Saintlukesfoundation

O suporte plurianual é agora fornecido por 87% dos financiadores, ante 79% em 2014 e 2017. Por outro lado, 80% dos financiadores exigem que as organizações conduzam avaliações, mas 38% não fornecem recursos para cobrir esses custos. Uma contradição que o próprio estudo destaca como ponto cego do setor. Geofunders

O que isso significa para OSCs brasileiras? A tendência global aponta para ciclos de financiamento mais longos e mais recursos disponíveis. Organizações que constroem relacionamentos com financiadores internacionais hoje estarão melhor posicionadas para acessar esse volume crescente de recursos.


5. State of Nonprofits 2025 — CEP

O segundo estudo do CEP nesta lista, o “State of Nonprofits 2025: What Funders Need to Know”, baseado em respostas de 585 organizações em fevereiro de 2025, revela que mais da metade dos líderes de ONGs aponta que seus maiores desafios de equipe decorrem de financiamento insuficiente para recrutar, reter e apoiar seus profissionais. Cep

O estudo mostra uma desconexão preocupante: enquanto líderes de organizações identificam o desenvolvimento de capacidade institucional como a principal ajuda que financiadores poderiam oferecer, apenas 40% dos financiadores compartilham essa visão. Essa lacuna de alinhamento evidencia o quanto é crítico que financiadores ouçam e considerem as necessidades reais de suas organizações parceiras. GEO

O que isso significa para OSCs brasileiras? A narrativa de capacidade institucional — equipe qualificada, gestão profissional, sistemas de informação — precisa ser parte do discurso de captação, não apenas dos relatórios internos.


O fio que conecta tudo isso

Esses cinco estudos falam a mesma língua, com sotaques diferentes: a filantropia eficaz financia organizações, não apenas projetos. Ela confia na capacidade de gestão de quem está na linha de frente. Ela remunera o custo real do trabalho. Ela constrói relações de longo prazo.

Para OSCs brasileiras, isso não é apenas uma notícia boa. É um argumento estratégico. Em um cenário onde captação de recursos segue sendo tratada como atividade-meio — e não como função institucional central — as organizações que internalizarem essa lógica terão vantagem competitiva crescente no acesso a recursos nacionais e internacionais.

A pergunta não é se a filantropia global está mudando. A pergunta é: sua organização está preparada para captar nesse novo contexto?