Direitos Humanos e Mobilização de recursos: renovando conceitos

Aqueles que ainda têm dúvidas de que as estratégias de mobilização de recursos, por si só, já trazem impactos positivos para organizações sociais podem encontrar um exemplo na Campanha Latino-Americana pelo Direito à Educação (CLADE). Criada em meados da década de 2000, a iniciativa defende o direito humano a uma educação transformadora, pública, laica e gratuita para todas e todos, durante toda a vida e como responsabilidade do Estado.

 A partir dessa premissa, conquistou relevância frente a atores políticos do meio educacional, tornando-se referência crítica sobre o sistema educativo na América Latina. Porém, a cooperação internacional – de onde vem grande parte do financiamento da campanha – tem redistribuído seus recursos, tanto por tema (pobreza, biodiversidade), como por região (continente africano), diminuindo, assim, o volume de investimento para causas de defesa de direitos, como a CLADE.

Com a necessidade de ampliar suas fontes de financiamento, a Campanha procurou a Mobiliza, que a levou a uma reflexão sobre mobilização de recursos. Em especial com indivíduos, visto que, apesar de ter alcançado legitimidade com seus pares, a CLADE é ainda pouco conhecida pela população em geral.

Em entrevista, a coordenadora-geral da CLADE e presidente da Campanha Mundial pelo Direito à Educação, Camilla Croso, fala como pensar sobre mobilização de recursos levou a organização a reavaliar a forma de engajar pessoas.

Mobiliza – Como vocês têm pensado a estratégia de mobilização de recursos?
Camilla Croso – A gente procura situar a captação de recursos numa discussão mais política de sustentabilidade, muito além de nos sustentarmos financeiramente. De que precisamos ter consolidada nossa missão, sermos política e socialmente pertinente e legítimos, que a nossa existência faça sentido.

A gente só consegue a sustentabilidade se essas questões, mais profundas e anteriores, existam. Essa foi uma reflexão importante porque fizemos um balanço e sentimos que temos essa base para conseguir então uma captação de recursos propriamente dita.

Mobiliza – Mas a campanha já conquistou relevância e legitimidade como ator político. Qual é o desafio agora?
Camilla Croso – O primeiro desafio é manter. Foi trabalhoso conseguir isso e precisamos ter a clareza de cultivar o que conquistamos. Quanto ao desafio de mobilização propriamente dito, temos reconhecido a necessidade de abrir um pouco a cabeça a outros recursos, que a gente já tem, como parcerias, alianças e ativismo.

Por outro lado, a cooperação internacional vem se reduzindo nos últimos anos, assim, a gente tem sido desafiado a ampliar nossas fontes de financiamento (60% dos recursos da CLADE vem da cooperação internacional) em duas formas: aumentar o financiamento dentro das categorias que já doam para a Campanha (ONGs internacionais e cooperação) e diversificar as próprias categorias, como fundações, contribuição associativa e indivíduos.

Mobiliza – Como essa reflexão mudou a forma da CLADE pensar sua gestão?
Camilla Croso – O exercício de pensar a captação de recursos trouxe maior clareza para a gente sobre a importância de engajar de fato a população na luta pelos direitos humanos. Não só organizações de educação ou instituições sociais, mas a população. A gente sabe que isso é demorado, um objetivo em si mesmo e de médio prazo.

Mobiliza – Isso impacta na estratégia da organização?
Camilla Croso – A gente inseriu em nosso plano estratégico, que coincidiu com a reflexão sobre mobilização de recursos, um primeiro objetivo geral, que é o fortalecimento dos sistemas públicos de educação na América Latina e no Caribe. Todas as estratégias para isso tem a ver com o imaginário social de a gente pautar o debate público, da gente chegar nas pessoas.

Então pensamos em mecanismos de engajamento da população, de mobiliza-la pela pauta da educação. Só assim, a gente pode, mais tarde, pensar em pedir que elas apoiem financeiramente a Campanha.

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