Muitas organizações da sociedade civil chegam ao final do ano sem ter um plano de captação de recursos estruturado. Não por falta de vontade — mas porque os modelos disponíveis são complexos, exigem muito tempo e, na prática, acabam engavetados.
Foi para responder a esse desafio que a Mobiliza desenvolveu o Canva da Captação: um modelo visual, simples e ágil para estruturar um plano de captação em uma única página.
A inspiração: o Business Model Canvas
O nome não é por acaso. Assim como o Business Model Canvas permite que uma empresa visualize e teste seu modelo de negócio de forma integrada, o Canva da Captação permite que uma OSC represente, em uma única folha, os elementos essenciais do seu plano de captação de recursos. A lógica é a mesma: síntese, visualização e alinhamento de equipe.
O que o Canva da Captação contém
O modelo é dividido em dois grandes lados que se complementam.
Lado direito — Estratégia
É o coração do plano. Aqui a organização define sua meta global de captação para o próximo ano e identifica as fontes prioritárias — que podem ser empresas, pessoas físicas, fundações nacionais ou internacionais, entre outras. Para cada fonte, o Canva registra os resultados históricos (volumes e percentuais captados em anos anteriores), as metas futuras e as principais estratégias e ações necessárias para ativar ou ampliar aquela frente.
Um exemplo concreto: uma organização que define como meta arrecadar R$ 3,5 milhões pode ter como fontes prioritárias Indivíduos (meta: ampliar a base de doadores em 15% e aumentar o ticket médio em 20%), Empresas via leis de incentivo (meta: ter ao menos 3 projetos aprovados e incrementar a prospecção) e Fundações Internacionais (meta: ampliar projetos com financiadores já existentes).
Lado esquerdo — Estrutura
Tão importante quanto saber de onde virão os recursos é saber o que a organização precisa ter para executar o plano. Este lado mapeia três dimensões críticas: os processos internos que precisam ser ajustados ou criados; a governança e equipe necessárias (novas funções, revisão de responsabilidades, envolvimento do conselho); e os investimentos indispensáveis — seja em marketing, tecnologia ou contratações.
A visualização conjunta dos dois lados revela algo essencial: um plano de captação ambicioso sem a estrutura correspondente não é um plano — é uma esperança.
Modelo Canva da Captação

Antes do Canva: a análise FOFA adaptada para captação
Um erro comum ao usar modelos visuais é preencher os blocos sem uma análise prévia consistente. O Canva da Captação não é um formulário — é o resultado de um processo de reflexão estratégica.
Por isso, quando aplicamos a metodologia do Canva, o ponto de partida para construi-lo é sempre uma análise FOFA (SWOT) adaptada para captação de recursos. Essa análise se organiza em dois movimentos:
Olhar para dentro envolve três dimensões.
A primeira é a análise financeira: mapear o histórico de receitas por fonte ao longo de vários anos, identificar a concentração em poucos financiadores (um sinal de alerta quando um único financiador responde por mais de 30% da receita), entender quais fontes estão crescendo e quais estão encolhendo.
A segunda é a análise de capacidades internas: avaliar honestamente as habilidades da equipe, da diretoria e do conselho — no que a organização é boa em captação e no que precisa melhorar.
A terceira é a compreensão do DNA organizacional: cada tipo de OSC tem afinidades naturais com determinadas fontes de financiamento. Uma organização de saúde com forte vínculo afetivo com ex-pacientes tende a ter mais tração com doações individuais. Uma organização de defesa de direitos humanos encontrará mais abertura em financiadores internacionais. Entender essa tipologia evita desperdiçar energia em fontes pouco compatíveis com a natureza da organização. (para entender melhor, considere ler este artigo sobre Funding Models)
Olhar para fora envolve pesquisar o ambiente externo: estudos como o Censo GIFE, o BISC (Benchmarking de Investimento Social Corporativo) e a Pesquisa Doação Brasil oferecem uma visão do comportamento dos financiadores no Brasil. A análise de congêneres — como se financiam organizações semelhantes, quais parceiros têm, que oportunidades estão explorando — completa esse panorama.
O resultado dessas análises pode ser feito em um workshop interno, onde se analisam os dados e se tomam decisões dos caminhos futuros em termos de captação de recursos.
É esse processo que transforma o Canva em um instrumento estratégico — e não apenas um quadro bonito na parede.
Como o Canva é usado na prática
O modelo tem sido utilizado em diferentes contextos: como ponto de partida para processos de planejamento estratégico de captação, como ferramenta de alinhamento entre equipe e liderança, e como síntese ao final de diagnósticos institucionais. A Mobiliza o utiliza em oficinas, aulas e processos de assessoria com OSCs de diferentes portes e perfis em todo o Brasil e na América Latina.
O resultado é um documento que cabe em uma página, pode ser revisado periodicamente e serve como referência compartilhada para toda a equipe de captação — conectando estratégia e estrutura de forma que raramente um plano mais extenso consegue fazer.
Boa sorte na construção de seu plano de captação.